O Dia da Consciência Negra nos Estados Unidos: história e celebrações da luta antirracista

19 de novembro de 2020
Por  Iron English

Como alguns de vocês devem saber, dia 20 de novembro é, no Brasil, o feriado nacional da Consciência Negra. A data, escolhida por tratar-se do dia da morte de Zumbi dos Palmares, é um momento de reflexão a respeito da formação escravocrata da sociedade brasileira, bem como suas posteriores consequências para a população negra. Pensando na importância de refletirmos a respeito do racismo, trazemos hoje um pouco da história desta discriminação nos Estados Unidos. 

É verdade que, no Brasil, mesmo com a abolição da escravidão, a inserção dos negros na sociedade foi opressora e violenta, mas de forma oculta e negada (não é à toa que o nosso país foi – e ainda é, por alguns – conhecido por ser a terra da “democracia racial”). Nos Estados Unidos, por outro lado, o que se instaurou após a abolição do regime escravista no Sul foi um regime legal de segregação racial, em que indivíduos de diferentes grupos étnicos ou raciais são legalmente excluídos. Isso se materializou, nos EUA, na forma de escolas, banheiros, universidades, ônibus, entre outros serviços públicos e privados, divididos de acordo com a raça. Existiam, portanto, locais os quais os negros eram proibidos de frequentar. As escolas e universidades eram específicas para negros. Ônibus, banheiros, lavanderias e hospitais também. Os empregos eram divididos de acordo com a raça.

Para além da segregação racial legalmente autorizada, havia ainda grupos supremacistas brancos que exerciam a violência direta e explícita contra negros. Um desses grupos, conhecido por muitos, é a Ku Klux Klan. Tal grupo defendia a purificação da sociedade estadunidense, visando a aniquilação de negros. Estes seriam considerados inferiores do ponto de vista racial – isto é, do ponto de vista biológico, como se existisse uma escala evolutiva entre brancos e negros. Essa hierarquia baseada na biologia se refletiria, segundo a corrente de pensamento dominante na época, na cultura. Haveria, portanto, povos primitivos, de um lado (nos quais estariam todos os não-brancos) e povos evoluídos (os brancos). 

Essa noção racista pautada na ciência vigorou por séculos e tem, até hoje, seus efeitos sobre a nossa sociedade. Hoje em dia sabemos, no entanto, que não existem diferentes raças humanas, de forma que, biologicamente, somos todos iguais. Da mesma forma, sabemos que a nossa constituição biológica não impacta em nossa cultura. Nos Estados Unidos, o processo de dessegregação racial foi resultado de uma série de movimentos dos direitos civis, frutos de muita luta e sangue, cuja figura notória foi Martin Luther King Jr. Ele foi responsável por liderar o boicote aos ônibus de Montgomery, visando acabar com a política de segregação racial vigente nos transportes públicos. Tal evento foi encabeçado também por Rosa Parks, mulher negra presa em 1955 quando recusou-se a ceder seu lugar racialmente demarcado no ônibus para que pessoas brancas não ficassem de pé devido à lotação. 

O boicote foi apenas um de muitos movimentos dos direitos civis nos Estados Unidos. Em 1963, a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade reuniu mais de 250 mil pessoas. Nela, Martin Luther King proferiu seu importante discurso, o qual ficou conhecido como Eu tenho um sonho.  

Iniciado em 1954 com o fim da segregação entre brancos e negros em escolas públicas, o processo de dessegregação só se concretizou por volta da década de 1970, quando foram aprovados direitos civis e o direito ao voto (em 1964 e 1967, respectivamente) à população negra. 

Apesar disso, a nossa sociedade foi construída em estruturas racistas. Brancos exerceram seu poder sobre os negros de forma a dominá-los econômica, cultural e simbolicamente. Martin Luther King foi assassinado em 1968 por um criminoso que acreditava que o intuito de King era boicotar os Estados Unidos política e economicamente. De forma semelhante, outro símbolo de suma importância para a luta antirracista nos Estados Unidos, Malcolm X, líder do Panteras Negras, foi morto brutalmente com treze tiros. No entanto, até hoje não se sabe a respeito do assassinato e tampouco sobre suas motivações: Malcolm X tinha como inimigos não apenas brancos, mas também a organização muçulmana Nação do Islã, da qual tinha feito parte.

Algumas décadas depois, a violência contra negros permanece nos Estados Unidos. Em 2013, o policial branco George Zimmerman foi absolvido após matar a tiros o adolescente afro-americano Trayvon Martin. A injustiça gerou indignação e resultou no movimento Black Lives Matter (ou Vidas Negras Importam), cujo principal foco em sua luta antirracista é denunciar a brutalidade policial e a desigualdade racial no sistema de justiça estadunidense. Em 2014, mais dois homens negros, Eric Garner e Michael Brown, foram assassinados pelas mãos da polícia.

Este ano, um homem negro foi enforcado por um policial branco de Minneapolis, mesmo afirmando repetidas vezes que não conseguia respirar. A violência resultou em sua morte. Esta, por sua vez, causou indignação a nível internacional. Nos Estados Unidos, foram ao menos 7.750 manifestações nos 50 estados após o assassinato de George Floyd, com a participação de brancos e negros.

Tais eventos, de forma alguma isolados, refletem o passado escravocrata dos Estados Unidos, suposta terra da democracia, liberdade e dos direitos; e ecoam em todo o mundo. O nosso passado é um passado escravocrata, no qual a violência foi seu principal meio. Seja no Brasil, seja nos Estados Unidos, é importante refletir a respeito do nosso passado comum e as suas consequências para o presente. 

No Brasil, contamos com o feriado nacional da Consciência Negra, no dia 20 de novembro, como momento de reflexão e homenagem a toda luta antirracista da população negra. Nos Estados Unidos, o que ocorre é o Mês da História Negra, em fevereiro, uma celebração anual das conquistas dos afro-americanos. Trata-se de uma comemoração de sua ancestralidade, como forma de afirmação e fortalecimento da população negra nos Estados Unidos. 

 

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